Rodrigo França

Religiões de matriz africana também precisam ocupar o espaço da política
Religiões de matriz africana também precisam ocupar o espaço da política · Imagem: Arte/Metrópoles

A fé pode orientar a consciência do eleitor e é necessário que as instituições protejam os diferentes tipos de religiões

Religiões de matriz africana também precisam ocupar o espaço da política
Religiões de matriz africana também precisam ocupar o espaço da política · Imagem: Source: www.metropoles.com

Rodrigo França

29/09/2026 11:27, atualizado 29/09/2026 11:29

Arte/Metrópoles

A religião entrou de vez no debate eleitoral brasileiro. E isso não deveria surpreender ninguém. Religião é cultura, identidade, pertencimento e é política, porque as decisões tomadas por quem ocupa o Legislativo e o Executivo interferem diretamente na liberdade que cada pessoa tem de viver sua fé.

Nos últimos dias, Nossa Senhora Aparecida voltou ao centro da disputa eleitoral. O que me interessa nessa história não é transformar a Padroeira em instrumento de uma disputa partidária. É observar o que acontece quando a religião se transforma em território de poder.

Flávio Bolsonaro declarou recentemente que, caso eleito presidente, seu primeiro ato seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A afirmação provocou reação inclusive dentro do catolicismo. Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo da Diocese de Campos e membro da CNBB, questionou publicamente o significado de um governo assumir uma identidade religiosa dessa natureza e afirmou que um presidente precisa governar para todos.

Existe aí uma tensão que merece ser discutida com seriedade. O Brasil é majoritariamente cristão, mas o Estado brasileiro não pertence ao cristianismo, ao catolicismo, ao evangelicalismo ou a qualquer outra religião. A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença, o livre exercício dos cultos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Também estabelece a separação entre o Estado e as instituições religiosas.

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E é justamente nesse ponto que a presença das religiões de matriz africana precisa deixar de ser tratada como nota de rodapé. Existe bancada evangélica. Existe articulação política católica. Existem parlamentares que fazem da identidade religiosa parte importante de sua atuação pública. Também existem pessoas comprometidas com a defesa dos povos tradicionais de terreiro e com a liberdade religiosa. O problema é que a representação política das religiões de matriz africana ainda está muito distante da dimensão histórica, cultural e demográfica dessas tradições.

Os números da violência ajudam a mensurar a gravidade da intolerância religiosa no país. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias de violações motivadas por crença. Desse total, as religiões de matriz africana concentram os maiores índices de identificação explícita: a Umbanda lidera com 228 registros, seguida pelo Candomblé (161), por ocorrências conjuntas entre ambas (47) e por outras tradições afro-brasileiras (40). No mesmo período, o canal contabilizou 72 casos envolvendo pessoas que se declararam evangélicas e 37 de católicos apostólicos romanos. Cabe ressaltar que esses registros não dimensionam a totalidade do problema: formalizar uma denúncia exige que a vítima reconheça a agressão, tenha acesso aos meios para reportá-la e confie na eficácia do atendimento estatal.

E intolerância religiosa não começa necessariamente com a destruição de um terreiro. Ela aparece quando uma criança é constrangida na escola por usar uma guia. Quando uma pessoa é chamada de “macumbeira” como insulto. Quando Exu é reduzido à figura do demônio. Quando uma roupa branca, uma conta, um fio de contas ou qualquer outro símbolo de uma tradição africana provoca suspeita. Quando um terreiro precisa explicar sua legitimidade enquanto outras religiões simplesmente ocupam o espaço público como se sempre tivessem pertencido a ele. Isso também é política.

Porque nenhum direito garantido pela Constituição é uma peça de museu. Direitos precisam de instituições que os protejam, de leis que os sustentem e de representantes dispostos a defendê-los quando são ameaçados. É por isso que a discussão eleitoral precisa chegar aos terreiros.

Quem disputa uma vaga no Legislativo precisa ser perguntado sobre racismo religioso. Sobre proteção aos espaços sagrados. Sobre educação para as relações étnico raciais. Sobre patrimônio cultural. Sobre segurança. Sobre políticas públicas para povos tradicionais de terreiro. Sobre o respeito à liberdade religiosa. E essa pergunta não precisa ser feita apenas por quem pertence a uma religião de matriz africana.

Porque quando um Estado começa a escolher qual fé representa melhor a nação, a consequência não fica restrita a quem não compartilha daquela crença. A fronteira da liberdade de todos começa a ser redesenhada. A fé pode orientar a consciência de um eleitor. O Estado precisa proteger a consciência de todos.

É importante que católicos percebam quando sua tradição pode ser utilizada como instrumento de uma disputa de poder. É importante que evangélicos também defendam a liberdade religiosa de quem não compartilha de sua fé. E é urgente que pessoas de Umbanda, Candomblé, Ifá, Quimbanda e outras tradições de matriz africana compreendam que sua presença na política não pode aparecer somente depois que um terreiro é atacado. Representação também é proteção.

Na hora de votar, uma pergunta deveria acompanhar cada eleitor de terreiro: quem estará disposto a defender meu direito de existir quando minha religião deixar de ser conveniente para o discurso político?

Essa resposta não está pronta. Ela precisa ser investigada por cada eleitor. Porque a urna também decide quem terá voz quando nossos direitos forem colocados à prova.