Há cerca de 5 mil anos, grupos que viviam na Baía Babitonga, em Santa Catarina, exploravam intensamente o ambiente marinho. Agora, ossos, marcas de corte e grandes peças de arpão reforçam uma hipótese antes considerada improvável. Esses povos podem ter caçado baleias de grande porte, em vez de depender apenas de animais encalhados.

O que os sambaquis da Baía Babitonga revelaram

Os pesquisadores analisaram 162 ossos trabalhados e não trabalhados, provenientes de 18 sambaquis da região de Babitonga. Assim, o conjunto permitiu relacionar artefatos, restos de cetáceos e cronologias preservadas em coleções arqueológicas formadas ao longo do século 20. Muitos desses materiais sobreviveram porque colecionadores os recolheram antes da destruição de antigos sítios costeiros.

O estudo publicado na Nature Communications identificou baleias-francas-austrais, jubartes e outros cetáceos. Além do material faunístico, os autores reexaminaram objetos antes descritos genericamente como bastões e reconheceram neles partes de arpões especializados. Hoje, grande parte desse conjunto permanece preservada no Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville.

🏛️ Há cerca de 5 mil anos: Grupos sambaquieiros exploravam grandes cetáceos na Baía Babitonga.

🌿 1940 a 1960: Guilherme Tiburtius reuniu parte importante dos materiais hoje preservados em Joinville.

🚀 2026: Novas análises associaram grandes peças de osso a sistemas de arpão.

Arpões de osso mudaram a hipótese do encalhe

Grandes peças de osso ajudaram a reinterpretar a exploração de baleias - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Durante décadas, muitos achados permitiam explicar o uso de baleias pela coleta oportunista de carcaças encalhadas. Porém, peças padronizadas encontradas em Morro do Ouro, Conquista e Cubatãozinho apontam para uma tecnologia voltada à captura de grandes animais marinhos. Alguns componentes medem entre 26,4 e 52 centímetros e foram produzidos a partir de costelas de cetáceos.

Duas peças receberam datas diretas de 4.900 a 4.710 e 4.970 a 4.780 anos calibrados antes do presente. Dessa forma, a tecnologia coincide com outras evidências arqueológicas desses sítios e fortalece a interpretação de caça ativa, embora não a transforme em certeza absoluta. Os pesquisadores também encontraram sulcos que ajudariam a prender pontas laterais aos componentes maiores.

Como os pesquisadores identificaram as baleias

A equipe combinou zooarqueologia tradicional com Zooarqueologia por Espectrometria de Massas (ZooMS), técnica que identifica proteínas preservadas no colágeno ósseo. Com isso, 122 das 155 amostras submetidas ao método forneceram algum nível de identificação taxonômica. Portanto, a análise molecular recuperou informações que a forma fragmentada ou polida dos ossos já não permitia reconhecer visualmente.

A baleia-franca-austral apareceu com maior frequência, representando 60 dos 118 restos de cetáceos identificáveis pelo ZooMS. Já as jubartes surgiram em ossos e objetos, enquanto espécies oceânicas raras provavelmente chegaram aos grupos por encalhes ou carcaças à deriva. Entre os 162 ossos examinados, 46 apresentavam marcas de corte compatíveis com atividades de processamento.

Por que a baleia-franca aparece com tanta frequência

A baleia-franca-austral usa águas rasas do sul brasileiro durante sua temporada reprodutiva, aproximando adultos e filhotes da costa. Por isso, seu comportamento costeiro teria tornado esses animais mais acessíveis aos grupos que dominavam embarcações e armas de caça marinha. O estudo destaca que essa aproximação ocorre em águas protegidas e rasas de Santa Catarina.

Os pesquisadores também observaram restos de indivíduos jovens, um dado compatível com seleção ativa de presas. Ainda assim, o próprio estudo admite que os sambaquieiros certamente aproveitaram encalhes, sobretudo quando encontravam espécies normalmente afastadas da costa. Assim, caça e aproveitamento oportunista podem ter coexistido no mesmo sistema de exploração marinha.

Evidência

O que ela indica

Arpões

Tecnologia especializada para atingir grandes animais marinhos.

Marcas de corte

Processamento de carne e gordura em parte dos ossos analisados.

ZooMS

Identificação de espécies usadas na fabricação de objetos e no aproveitamento de carcaças.

O que a descoberta muda na história da caça às baleias

A interpretação desloca para o sul do Brasil uma das evidências mais antigas conhecidas de exploração ativa de grandes baleias. Antes, os registros arqueológicos mais convincentes de caça especializada estavam concentrados em sociedades do Pacífico Norte, Atlântico Norte e Ártico, cerca de mil anos depois. Existem arpões costeiros mais antigos em outras regiões, porém sua associação direta com a caça de grandes baleias permanece incerta.

Contudo, os próprios autores limitam a conclusão: grandes componentes de arpões apareceram em apenas três sítios de Babitonga. A Prefeitura de Joinville trata o resultado como sugestivo, e a Universidade Autônoma de Barcelona mantém que baleias provavelmente eram caçadas. Portanto, a descoberta amplia a cronologia possível sem transformar uma interpretação arqueológica em fato absoluto.

O passado marítimo ganha outra escala

Os materiais de Babitonga mostram que tecnologia, conhecimento costeiro e uso de grandes cetáceos faziam parte de uma relação marítima sofisticada há milênios. A descoberta não elimina o aproveitamento de encalhes, mas amplia o que podemos reconhecer sobre esses povos. Ao olhar novamente para essas coleções, também enxergamos melhor a complexidade do litoral brasileiro antigo.

Leia mais:

- A cidade mexicana onde parte das ruas desaparece debaixo do centro histórico e motoristas atravessam a região por antigos túneis subterrâneos

- Entre 1976 e 1993, cientistas despejaram ácido sulfúrico de propósito em um lago do Canadá até a água ficar tão ácida quanto café preto

- No meio da Amazônia, uma cidade cercada pela floresta reúne mais de cem cachoeiras catalogadas, além de cavernas, corredeiras e antigas formações rochosas