Dinheiro e Negócios

Genial foi alvo da terceira fase da operação Compliance Zero, que investiga atuação da Faria Lima em negócios do PCC

Gabriella Furquim
28/09/2026 21:19
Divulgação/Genial Investimentos
Os investigadores responsáveis pela terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na última semana, apontaram que o Banco Genial, acolheu operações financeiras comandadas por supostos líderes da facção criminosa PCC após o grupo romper com a gestora Reag, liquidada pelo Banco Central (BC).
“Em breve síntese, sustenta o órgão ministerial que os líderes da organização criminosa atuante no setor de combustíveis, Roberto Augusto Leme da Silva, vulgo ‘Beto Louco’, e Mohamad Hussein Mourad, vulgo ‘Primo’, teriam edificado projeto criminoso de lavagem de capitais para a aquisição da distribuidora Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda. (Terrana) e para a blindagem dos imóveis do grupo, ocultados em fundos de investimento (Los Angeles 01 e Derby 44), após o rompimento com a administradora Reag”, diz trecho da decisão judicial que autorizou a operação.
Além, os investigadores afirmam nos autos que o Banco Genial “se ofereceu como estrutura financeira fraudulenta para mascarar a ocultação dos valores que financiaram a compra, bem como ocultar os seus reais proprietários e em contraprestação seria remunerado pelos instrumentos contratuais dissimulados constituídos formalmente para financiar o negócio jurídico”.
Em outro trecho, é anexado aos autos documentos que demonstram que o próprio compliance do Banco Genial identificou que Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, era alvo de processo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por fraude. Apesar do alerta feito ao comando do banco, a operação financeira foi mantida.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles
No centro da investigação
Como mostrou a coluna, o Banco Genial foi parar no centro da operação que investiga o uso de estruturas do mercado financeiro para ocultar dinheiro do crime organizado. Ex-diretor e sócio da instituição, Humberto Arthur Tupinambá foi alvo de mandados de busca e apreensão, por ter, de acordo com os investigadores, operado em favor de líderes do PCC enquanto estava no comando da instituição financeira.
A decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) que autorizou as buscas detalha a relação de Tupinambá e familiares com pessoas ligadas a líderes da facção e aponta operações financeiras realizadas pelo banco que beneficiaram o grupo criminoso.
Em um dos casos elencados, o Banco Genial teria emprestado aos líderes do PCC dinheiro que, na verdade, já era do grupo criminoso. A circulação dos valores teria começado quando a instituição financeira assumiu a administração do fundo Radford, cujo cotista exclusivo era a Usina Itajobi — empresa vinculada à organização criminosa.
O Banco Genial, então, teria usado o dinheiro do fundo para conceder empréstimos de mais de R$ 160 milhões, via Certificados de Depósito Bancário Vinculados (CDBVs) e Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), a duas empresas de fachada criadas com capital de apenas R$ 1 mil.
Com o empréstimo em mãos, as empresas compraram a distribuidora de combustíveis Terrana e 100% das cotas do fundo Derby 44, que abrigava imóveis do grupo criminoso, fechando, assim, o círculo do dinheiro.
“Após a deflagração da operação, o Banco Genial renunciou à administração do fundo, liquidou os CDBV e cedeu ao próprio Radford os créditos das CCBs, o que, segundo o Ministério Público, revelaria o caráter meramente dissimulatório da estrutura”, aponta trecho da decisão judicial.
O documento também aponta a relação de Tupinambá e seus irmãos André Tupinambá e Bruno Tupinambá com integrantes da facção criminosa. Mensagens interceptadas mostraram negociações diretas entre os executivos e os operadores do esquema.
Além disso, as empresas AT Assessoria e BT Assessoria, que pertencem aos irmãos do ex-diretor do Banco Genial, receberam R$ 463 mil, cada, da Aster Petróleo, empresa do grupo criminoso.
A decisão ainda ressalta que o Genial assumiu a gestão do Radford apesar de alertas do compliance do próprio banco que identificaram que o dono da usina que alimentou o fundo tinha sido alvo de sanções por fraude da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O dono da Usina Itajobi é Antonio Carlos Freixo, o empresário conhecido como “Mineiro”, delator do caso Master, suposto elo entre Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse e alvo da operação da última quinta-feira.
Freixo comprou a usina em 2023, por meio do do Grupo Entre, do qual faz parte a Entrepay, fintech liquidada pelo Banco Central (BC) em março deste ano por “descumprimento de normas regulatórias”.
O que diz o Banco Genial
O Banco Genial informou que todas as informações relacionadas às operações envolvendo o fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas de fachada, que estavam em poder da instituição, foram fornecidas pelo próprio banco ao MPSP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
“No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.
A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.”
O banco também informou que, após a deflagração da Operação Carbono Oculto, renunciou à administração do fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.
“A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários.”


