🔬

Um animal quase invisível resiste ao que derrubaria qualquer humano

E se uma única proteína dele conseguisse blindar o DNA das nossas células? ⬇️

Um tardígrado de menos de 1 milímetro guarda uma arma contra a radiação, e pesquisadores japoneses a testaram em células humanas. A proteína, batizada de Dsup, reduziu em cerca de 40% os danos de raios X ao DNA. O urso-d’água, que também aguenta o vácuo do espaço, virou pista valiosa para proteger o corpo humano.

O que torna o tardígrado um animal tão resistente?

A resistência nasce da combinação entre uma hibernação extrema e um arsenal genético incomum. Ao perder quase toda a água, o animal microscópico entra em criptobiose, estado em que o metabolismo cai a quase zero. Nessa forma encolhida, chamada tun, ele tolera ressecamento, radiação e até o vácuo do espaço.

Uma equipe japonesa, com pesquisadores da Universidade de Tóquio, sequenciou o genoma de uma das espécies mais tolerantes ao estresse, a Ramazzottius varieornatus. O mapa genético revelou três pistas.

- Perda de vias genéticas que agravam os danos causados pelo estresse.

- Expansão de famílias de genes que ajudam a reduzir esses danos.

- Alta produção de proteínas exclusivas dos tardígrados.

Proteína Dsup: o escudo do tardígrado contra raios X - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Como a proteína Dsup protege o DNA da radiação?

A Dsup se associa ao DNA e o protege do estresse antes que o estrago aconteça. A lógica surpreendeu os autores da Universidade de Tóquio, porque se acreditava que a tolerância à radiação vinha sobretudo de moléculas de reparo.

Até agora, essa proteína só foi identificada em tardígrados. O genoma do animal ainda pode esconder parentes dela, e novas buscas já estão nos planos da equipe.

O que aconteceu quando a proteína foi parar em células humanas?

As células ficaram bem mais protegidas. Segundo o estudo publicado na Nature Communications, a proteína suprimiu cerca de 40% do dano ao DNA induzido por raios X em células humanas cultivadas em laboratório.

O experimento reuniu três peças: o animal, a molécula e o resultado. O quadro abaixo mostra como elas se encaixam.

Do tardígrado ao laboratório: o que o estudo mostrou

🐻

O animalRamazzottius varieornatus, uma das espécies de tardígrado mais tolerantes ao estresse.

🧬

A moléculaDsup, proteína exclusiva dos tardígrados que se associa ao DNA.

☢️

O resultadoCerca de 40% menos dano por raios X em células humanas cultivadas.

Fonte: Hashimoto et al., Universidade de Tóquio, Nature Communications, 2016.

Há um detalhe curioso: as células que produziam a proteína continuaram capazes de se multiplicar. Por ora, tudo foi testado apenas em células cultivadas, e os próprios autores admitem que a Dsup pode afetar outras funções celulares.

O resultado abre a possibilidade de reforçar a resistência das células humanas ao estresse, o que um dia poderia beneficiar pacientes em radioterapia. Takekazu Kunieda, um dos autores, também cita trabalhadores de instalações nucleares e lavouras em ambientes extremos, como Marte.

O urso-d'água e o segredo genético contra a radiação - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Ele realmente aguenta o vácuo do espaço e o calor extremo?

Aguenta, mas com ressalvas importantes. A resistência extrema vale para a criptobiose, o estado seco chamado tun, e não para o animal ativo.

Muita gente repete que o tardígrado é indestrutível. Os registros mostram um quadro mais preciso.

- Espaço: tardígrados secos foram levados à órbita em 2007 e expostos por 10 dias ao vácuo e à radiação, e parte deles sobreviveu.

- Calor no estado seco: algumas espécies toleram por pouco tempo temperaturas próximas de 150 °C, mas em um estudo com nove espécies até a mais resistente teve queda brusca de sobrevivência acima de 100 °C.

- Animal ativo: em três espécies testadas, a mortalidade chegou a 100% entre 36 °C e 38 °C.

O que o urso-d’água ensina sobre os limites da vida?

O urso-d’água lembra que a natureza guarda soluções improváveis nos lugares mais discretos. Um bicho de menos de 1 milímetro já faz laboratórios repensarem como proteger as células. Ainda há muito trabalho pela frente, e a pista genética já está sobre a mesa. Da próxima vez que vir musgo úmido, que tal imaginar quem mora ali e contar essa história a um amigo?